Por Ag. Évelton Agente de Trânsito, Instrutor de Segurança Viária do Grupo NIT e CEO do site agentesdetransito.com.br
Como instrutor de segurança viária e agente que vivencia o dia a dia das ruas, frequentemente ouço que a solução para a violência no trânsito se resume a uma palavra: “educação“. Dizem que pedestres e motoristas precisam apenas “respeitar os direitos uns dos outros”. Embora a responsabilidade individual seja importante, focar apenas nela é um erro grave que ignora a raiz do problema. Ao analisarmos a infraestrutura das nossas cidades, percebemos que a insegurança não é apenas fruto de má conduta, mas de um desenho urbano que falha em proteger a vida.
A Engenharia do Fluxo vs. A Engenharia da Vida
Para entender por que nossas ruas são perigosas, precisamos olhar para como elas são projetadas. No planejamento urbano tradicional — muito aplicado tanto na América do Norte quanto replicado no Brasil — a prioridade máxima dos engenheiros de tráfego tem sido a velocidade e o volume de veículos. A segurança, infelizmente, muitas vezes fica em segundo plano.
O sucesso de uma via é medido pelo chamado “Nível de Serviço”, um sistema que avalia a fluidez do tráfego. Uma classificação “A” significa trânsito livre, enquanto “F” significa congestionamento. O problema sistêmico é que qualquer medida que possa salvar vidas, como faixas de pedestres elevadas ou redutores de velocidade, é vista como algo negativo porque “piora” o nível de serviço ao desacelerar os carros.
O resultado disso são avenidas dentro das cidades desenhadas como se fossem rodovias, construídas para mover o maior número de veículos o mais rápido possível, tratando a segurança de quem está fora do carro como algo secundário.
A Ilusão da Responsabilidade Exclusiva
Historicamente, a indústria automobilística trabalhou duro para transferir a culpa dos atropelamentos para as vítimas. No início do século XX, as ruas eram espaços públicos compartilhados, mas com o aumento da velocidade dos carros e das mortes, houve uma campanha massiva para criar o conceito de “jaywalking” (atravessar fora da faixa ou de forma imprudente), rotulando o pedestre como o intruso em seu próprio espaço.
Essa mentalidade persiste. Quando vemos um atropelamento, a primeira reação de muitos é perguntar: “Por que ele não usou a passarela?” ou “Por que estava fora da faixa?“. Mas tentar resolver a segurança viária focando apenas na mudança de comportamento individual é improdutivo, pois ignora que os seres humanos são inerentemente imperfeitos e cometerão erros. Um sistema seguro não deve depender de seres humanos perfeitos; ele deve ser projetado para perdoar falhas.
Não podemos esperar segurança total quando o sistema é fundamentalmente perigoso. Campanhas educativas e fiscalização têm seu valor, mas não conseguem corrigir um design ruim. Placas chamativas e slogans de segurança muitas vezes servem apenas como distrações visuais para motoristas que já estão sobrecarregados, podendo, ironicamente, aumentar o risco de colisões.
O Paradoxo da Infraestrutura Brasileira
No Brasil, assim como observado nas fontes sobre o urbanismo norte-americano, criamos ambientes hostis. Cidades são lugares onde as pessoas vivem, trabalham e convivem, não apenas corredores de passagem. No entanto, ao priorizarmos o fluxo rápido, tornamos o ato de caminhar ou pedalar uma atividade de alto risco.
Além disso, a dependência excessiva do automóvel cria outros problemas sistêmicos. A condução sob efeito de álcool ou a distração ao volante, por exemplo, são exacerbadas pela falta de opções. Quando o transporte público é precário ou inexistente e as distâncias são longas, muitas pessoas se veem “forçadas” a dirigir mesmo sem estarem nas melhores condições físicas ou mentais,. Aplicativos de transporte não são a solução definitiva, pois apenas substituem um carro por outro, sem resolver a questão da mobilidade de massa.
O Caminho para a Mudança: Design que Protege
A verdadeira segurança viária vem da infraestrutura. Sabemos que estreitar as faixas de rolamento, criar curvas mais fechadas e eliminar zonas de escape desnecessárias em áreas urbanas força os motoristas a desacelerarem naturalmente. Dirigir é uma atividade subconsciente; os motoristas trafegam na velocidade que se sentem confortáveis. Placas de limite de velocidade não funcionam se a estrada foi desenhada para parecer uma pista de corrida.
Para salvarmos vidas nas cidades no Brasil, precisamos inverter a lógica. Em vez de ruas largas e corredores de velocidades como faixas azuis ou exclusivas que convidam à velocidade, precisamos de ruas que induzam a calma. Precisamos de infraestrutura que priorize o pedestre não apenas com tinta no chão, mas com barreiras físicas e geometria viária que impeçam o excesso de velocidade, projetos que levam o veiculo a pontos de maior fluxo facilitando os deslocamentos.
Como diz a máxima do urbanismo moderno: se queremos que as pessoas vivam mais e melhor, precisamos permitir que elas sejam ativas sem que isso represente um risco de morte. Caminhar é uma parte fundamental de ser humano. A segurança no trânsito não é apenas sua responsabilidade; é, acima de tudo, uma responsabilidade de quem desenha as nossas cidades.











