Por Ag. Évelton Agente de Trânsito, Instrutor de Segurança Viária do Grupo NIT e CEO do site agentesdetransito.com.br
Colegas de farda e cidadãos conscientes,
Quem trabalha na rua, no “trecho”, sabe que a realidade do trânsito é dura. Muitas vezes, nós, agentes, somos cobrados para fiscalizar comportamentos individuais — o pedestre que atravessa fora da faixa ou o ciclista ou motociclista que arrisca a vida entre carros. No entanto, participar de discussões globais sobre segurança viária, como a recente conferência da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), confirma o que venho defendendo: não basta educar se a cidade é desenhada para matar.
Precisamos falar sobre infraestrutura sistêmica e mobilidade ativa. Os dados são alarmantes: na região das Américas, um em cada cinco mortos no trânsito é pedestre ou ciclista,. E o problema não é apenas “falta de atenção”; é a falta de políticas públicas que protejam quem não está dentro de um veículo blindado.
O Problema: Cidades Feitas para Carros, Não para Pessoas
Historicamente, desenhamos ruas para mover veículos, não pessoas. O resultado é que, embora caminhar e pedalar estejam em alta, as mortes desses usuários também aumentaram. Estamos incentivando as pessoas a serem saudáveis, mas as jogando em um ambiente hostil.
A segurança viária não pode ser tratada como secundária ao fluxo de tráfego. Estudos mostram que apenas 21% das estradas avaliadas na região possuem classificação de 3 estrelas ou mais para segurança de pedestres, e apenas 23% para ciclistas,. Isso significa que a vasta maioria das nossas vias é inerentemente perigosa.
A Abordagem de Sistemas Seguros (Safe Systems)
Para mudar esse cenário, técnicos e gestores precisam adotar a abordagem de “Sistemas Seguros”. Isso significa admitir que o ser humano erra e que a infraestrutura deve perdoar esse erro. As principais medidas citadas por especialistas globais incluem:
1. Redução de Velocidade em vias Compartyilhadas: Implementar zonas de 30 km/h em áreas urbanas onde pedestres, bicicletas e veículos interagem. A velocidade mata, e reduzi-la é a medida mais eficaz em vias nao arteriais ou principais.
2. Segregação Física: Tinta no chão não protege ninguém. Precisamos de ciclovias segregadas e calçadas largas e desobstruídas (Em Osasco/SP nem pedestres tem calcada, as mesmas sao ocupadas por mesas e cadeiras).
3. Desenho Urbano: Estreitar faixas para induzir a redução de velocidade e criar conexões seguras entre bairros e transporte público.
Ferramentas Técnicas para Gestão e Fiscalização
Para meus colegas técnicos e gestores, o evento apresentou ferramentas essenciais que devemos começar a aplicar no Brasil:
• O “Toolkit” da OMS: Foi lançado um novo guia com 7 áreas de política pública, que vão desde o design da rua até a legislação e fiscalização. Ele reforça que precisamos proteger e priorizar espaços de caminhada, removendo obstáculos como vendedores ambulantes desordenados ou estacionamento ilegal.
• Ferramenta HEAT (Health Economic Assessment Tool): Como justificar o custo de uma ciclovia para um prefeito cético? A ferramenta HEAT calcula o valor econômico das mortes evitadas e da redução de emissões de CO2. Em um exemplo na Colômbia, a ferramenta estimou uma economia de 166 milhões de dólares ao evitar mortes prematuras e reduzir emissões.
• Auditorias de Rua (Mobility Snapshots): A sociedade civil pode usar ferramentas simplificadas de classificação por estrelas (iRAP) para avaliar cruzamentos. Isso gera dados técnicos para cobrar melhorias, como a campanha feita na Argentina que resultou na readequação de 750 quarteirões,.
• App Walkability (Walk21): Um aplicativo que permite aos cidadãos mapearem suas experiências (positivas ou negativas) ao caminhar. Isso gera mapas de calor que mostram aos gestores exatamente onde intervir,.
Casos de Sucesso: É Possível Mudar na América Latina
Não precisamos olhar para a Europa para ver mudanças. Nossos vizinhos estão dando aula:
• Montería, Colômbia: A cidade aplicou a “pirâmide invertida”, priorizando pedestres. Com a expansão de ciclovias, sistemas de bicicletas públicas e campanhas de redução de velocidade em algumas vias, a cidade reduziu as mortes no trânsito em 33% em três anos,. Eles provaram que tornar a cidade verde e caminhável salva vidas.
• Guadalajara, México: Em menos de 10 anos, a cidade expandiu sua rede cicloviária de 20 km para 260 km. Eles implementaram o programa “Banquetas Libres” (Calçadas Livres), multando severamente quem estaciona na calçada ou a utiliza como extenção de seus estabelecimentos e usando esse dinheiro para construir infraestrutura,. O resultado? Redução de 77% nas mortes de ciclistas.
A Importância da Legislação e Saúde
Não podemos esquecer o papel da legislação. O Chile, por exemplo, está avançando com a “Lei Jacinta”, que aumenta os padrões de exigência de saúde física e mental para renovação da CNH, especialmente para idosos, reconhecendo que nem todos estão aptos a conduzir uma arma em potencial,.
Conclusão: O Papel do Agente e da Sociedade
Para nós, Agentes de Trânsito, o recado é claro: nossa missão vai além da caneta e do talão. Somos parte de um sistema que precisa proteger a vida. Fiscalizar excesso de velocidade e desrespeito à faixa de pedestre não é “indústria da multa”, é uma ferramenta de saúde pública.
Para a sociedade e leigos: parem de aceitar que mortes no trânsito são “acidentes” inevitáveis. Exijam de seus prefeitos ciclovias seguras, calçadas decentes e livres de obstaculos.
A mobilidade ativa melhora a saúde (reduzindo diabetes e doenças cardíacas), o clima e a economia local. Mas para que as pessoas caminhem e pedalem, elas precisam primeiro ter a certeza de que voltarão vivas para casa.
Juntos por um trânsito mais humano.











